sábado, 12 de novembro de 2016

FARGO - UMA COMÉDIA DE ERROS (Fargo, 1996)


UMA SUTIL E DIVERTIDA CRÍTICA A UMA SOCIEDADE DOENTE.

país produtor: Estados Unidos da América
direção e roteiro: Joel e Ethan Coen
elenco: Frances McDormand, Steve Buscemi, William H. Macy

sinopse: um homem arma o sequestro de sua própria esposa afim de embolsar o resgate de seu rico sogro. Só que as coisas não saem como planejado, levando uma policial grávida (Frances McDormand) a tentar elucidar o caso.

Metascore (metacritic.com): 85

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Fargo não quer ser levado a sério desde os seus dizeres iniciais, quando se anuncia "baseado em fatos reais", uma brincadeira dos Cohen com o interesse da audiência comum, que adora filmes desse tipo.

A ambientação da história em um ponto perdido no mapa americano, em meio a um rigoroso inverno e milhares de "yaaas", garantem momentos esplêndidos. O riso e o interesse maior da obra estão nos tipos marcantes que passam pela tela, oriundos desse rincão chamado Fargo e de seus arredores.

Não há nesse filme nenhuma tentativa de se transformar os acontecimentos em algo digno de alguma reflexão maior do que a que chega a policial, com toda a sua simplicidade e, por isso, clareza: existem coisas mais importantes que o dinheiro, sabia?

Não é portanto, uma obra que nos faz, depois da sessão, parar para pensar. A história, divertida e repleta de situações que nos mantém de olhos arregalados e respiração suspensa, é tratada como se fosse banal, simples. Para os Cohen, o que está em tela é fruto de uma sociedade doente, capitalista, violenta e que se alimenta mal.

Para mim, esse tratamento dos fatos fazem de Fargo um espetáculo único, inovador. É talvez a grande obra prima dos irmãos Cohen que, recentemente, ganhou adaptação em uma boa série de TV.
 
Visto em DVD em 1997 e revisto anos depois, em arquivo digital, por duas vezes.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O PODEROSO CHEFÃO (The Godfather, 1972)



UMA OBRA-PRIMA QUE QUASE NÃO EXISTIU.

país produtor: Estados Unidos da América
direção: Francis Ford Coppola
roteiro: Mario Puzo e Francis Ford Coppola
elenco: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, Diane Keaton, Talia Shire

sinopse: primeiro filme da trilogia, conta a ascensão do filho caçula Michael Corleone ao posto de "padrinho" de uma família mafiosa de Nova York.

Metascore (metacritic.com): 100

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Já tanto se falou e tanto se elogiou O Poderoso Chefão que qualquer análise crítica desse obra-prima se torna redundante e o mais do mesmo. Meu interesse então não é falar do filme em si, mas sim do fato de que esse clássico poderia nunca ter existido como o conhecemos, tantos foram os problemas e intrigas que permearam a sua produção.

A história da família Corleone no cinema começou quando a Paramount, necessitando desesperadamente de uma grande bilheteria, comprou os direitos autorais do livro homônimo de Mario Puzo, um tremendo sucesso de vendas desde seu lançamento em 1969. A primeira opção para dirigir o filme não era Francis Ford Coppola mas, diante da recusa de nomes como Sergio Leone e Peter Bognadovich (por receio de fazerem uma obra que glorificasse a máfia), Coppola foi chamado.

Porém ele somente aceitou dirigi-lo quando viu uma oportunidade de fazer da história de Don Corleone e sua família uma metáfora do capitalismo (será que conseguiu?). Outro motivo, esse sim forte, era que sua produtora estava afundada em dívidas após produzir a ficção científica THX-1138, de 1971, do seu amigo George Lucas, um grande fracasso de bilheteria.

E foi assim que o jovem Coppola, sem grandes poderes dentro da Paramount, teve que negociar cada ideia sua, quase sempre encaradas com desconfiança pelos executivos. A equipe do filme tinha nomes impostos pela produtora, o que tornava o set de filmagem tenso. Isso somente foi resolvido quando ele, já na iminência de ser demitido, expulsou do set todos que não confiava, inclusive o primeiro assistente de direção. Foi um ato desesperado mas que, felizmente, deu certo.

Outra grande dor de cabeça foi a escolha do elenco. Marlon Brando foi aceito apenas diante da insistência quase messiânica do diretor, que como última cartada, gravou o célebre teste de elenco do ator, em que ele coloca os algodões nas bochechas e magicamente se transforma no Don Corleone.

Aqui, um vídeo em que Coppola fala sobre esses tensos momentos: https://youtu.be/rf_ybHpPbyY


Al Pacino foi outro que sofreu, pois era um quase desconhecido na época. Na visão torta dos executivos, o sucessor de Don Corleone deveria ser um ator de maior estatura e porte. Quase trocado na primeira semana, somente foi salvo quando Coppola mostrou aos produtores a emblemática sequência em que Sollozzo e Capitão McCluskey são mortos na cantina italiana.

A epopeia de Coppola à frente de uma produção repleta de ingerências e desconfianças está magistralmente documentada nos extras do DVD que trás uma versão restaurada e comemorativa. É uma delícia ouvir Coppola comentando as cenas. Ele conta os problemas da produção, aponta os erros que somente ele percebia e ironiza a parca visão dos executivos que não entendiam a mente criativa desse gênio da sétima arte.


Poucos no estúdio acreditavam no sucesso do filme e, para minimizar os riscos, deram a Coppola um orçamento restrito, de pouco mais de 6 milhões de dólares. Assim, muitas cenas hoje clássicas foram filmadas a toque de caixa. A sequência inicial, em que a maioria dos personagens são apresentados ao espectador, durante a festa de casamento da filha de Don Corleone, foi filmada em três dias. Em uma produção normal, dada a dificuldade em gerir tantos atores e situações, deveria ser dado ao diretor um tempo maior. Nos comentários de Coppola no DVD percebemos o amargor do diretor com esses problemas de produção. Ele fala que em determinadas situações se sentia dirigindo um filme B.

Claro que isso é um exagero, pois vejam só o elenco que Coppola dispunha, vejam a qualidade de seu fotógrafo Gordon Willis e da música de Nino Rota. Aliás, tal música chegou a ser rechaçada pela Paramount. Acreditem se quiser, houve quem se opusesse a esse maravilhoso tema, um dos maiores da história do cinema. Mais uma vez Coppola se viu obrigado a intervir e ameaçou sair do filme. Depois, com a cabeça no lugar, sugeriu apresentar o filme para um público restrito. Se não gostassem da música, ela seria trocada. Claro que todos adoraram.

A razão para tantas opiniões absurdas e ingerências é que muitos desses executivos (que depois quebraram a cara) estavam sendo guiados não somente por suas reais convicções estéticas, mas também por não confiarem na genialidade de Coppola, um diretor da nova geração de Hollywood e com seus próprios métodos, que andava pelos sets de filmagem com um calhamaço de papéis intitulado The Godfather's Notebook, repleto de anotações e rabiscos sobre as páginas originais do livro. Ninguém compreendia que essa foi a forma que Coppola encontrou para imergir na história de Puzo e adapta-la da melhor maneira possível. E de fato, com tantos personagens, paisagens e passagens de tempo, é incrível a forma natural como as ações fluem homogeneamente. Todos os personagens relevantes tem uma construção e um desenvolvimento; não há furos no roteiro.


Nesse link Coppola fala sobre essas anotações, que foram inclusive lançadas recentemente em livro: https://youtu.be/awce_j2myQw

Mas havia outros problemas além dos relacionados ao set de filmagem. A oposição dos ítalo-americanos ao filme era grande. Manifestações e passeatas falavam em boicote à produção e havia inclusive ameaças aos produtores. As lideranças dessas manifestações diziam que o filme lançava estereótipos sobre os descendentes de italianos. Eram a massa de manobra perfeita para os grandes chefões da máfia da cidade.

Foi preciso muitas negociações entre os mafiosos e os produtores para que as coisas se acalmassem e, assim, as locações em Little Italy fossem utilizadas. O problema é que essas negociações vazaram e, diante da recepção negativa na imprensa, quase provocaram o cancelamento das filmagens. Há inclusive um ótimo documentário sobre esses fatos chamado The Godfather and the Mob (2006). Está no Youtube: https://youtu.be/72HlbaAnZfo


Tentando se manter avesso a tudo isso, Coppola continuava lutando por seu filme. Uma cena que resume toda essa conjuntura é quando Luca Brasi visita o escritório de Don Corleone. O personagem foi interpretado por Lenny Montana, um capanga real da máfia que queria "virar ator" e foi imposto por seus chefes à produção. Só que ele não tinha o menor talento e sua cena com Marlon Brando resultou em um desastre. Coppola resolveu então colocar uma cena extra, em que o personagem, visivelmente nervoso, decora o texto que irá dizer para o seu poderoso padrinho. No DVD, Coppola fala que essa foi uma saída criativa e perfeita para um problema, que acabou "virando uma piada interna da produção."

E foi assim, driblando tantos problemas e limitações, que Coppola dirigiu esse retrato icônico da máfia que influencia até hoje os filmes com essa temática. Um sucesso imenso de bilheteria e o início de uma maravilhosa trilogia aclamada por todos. Difícil acreditar, mas por detalhes, tal trilogia que hoje todos amam, poderia nunca ter existido como tal.

Visto pela primeira vez em VHS nos anos 80 e depois revisto por incontáveis vezes em DVD e mídia digital.

sábado, 22 de outubro de 2016

TOP 10 – CONHECENDO A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Nenhum fato histórico inspirou tantos filmes e séries como a Segunda Guerra Mundial. De acordo com o site IMDb são cerca de 6 mil título relacionados a esse evento traumático que redefiniu a História e cujas consequências até hoje são percebidas. A ideia aqui não é apresentar os 10 melhores títulos sobre a Segunda Guerra, mas sim aqueles que, em ordem cronológica, melhor contam os eventos terríveis do conflito.


  • Há duas causas principais para a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Uma foi o Tratado de Versalhes em 1919, que penalizou duramente a Alemanha, derrotada após a Primeira Guerra Mundial. Os seus desdobramentos (inflação e desemprego) insuflaram no povo alemão um perigoso sentimento revanchista e nacionalista. 
  • A outra causa foi a crise de 1929, que levou a um colapso financeiro mundial sem precedentes, atingindo em cheio uma Alemanha ainda se reerguendo das pesadas dívidas pós-guerra.
  • Mas será que esses acontecimentos e fatos por si só explicam a ascensão de Hitler? Esse série em 6 episódios produzida pela BBC faz uma inquietante indagação: como uma nação civilizada do coração da Europa admitiu que uma figura grotesca como Hitler se tornasse chanceler da Alemanha em janeiro de 1933?


  • Após a ascensão de Hitler, a Alemanha viveu uma fase de militarização e de desrespeito a tratados internacionais. O ódio aos judeus tornou esses cidadãos de 2ª classe. Franceses e ingleses, algozes da Alemanha na Primeira Grande Guerra, faziam vistas grossas ao totalitarismo de Hitler. Tal covardia criava o ambiente propício à guerra.
  • Mas a Alemanha temia a União Soviética de Stálin. Assim, nasceu o Tratado de Não Agressão entre os dois países, com duração de 5 anos. Foi a senha para a invasão da Polônia, por ambos, em setembro de 1939.
  • A Polônia tinha na época uma grande sociedade judaica. Iniciou-se então a alocação desses judeus nos chamados guetos, sendo o mais famoso deles o de Varsóvia, retratado com perfeição e crueza em O Pianista.
  • Dois dias após a invasão, França e Inglaterra não tiveram outra saída e declararam guerra à Alemanha.

 
  • O holocausto judeu é um dos fatos mais inquietantes de Segunda Guerra. Pela primeira vez um país criava uma ampla estrutura de logística e pessoal para exterminar um povo. A grandiosidade de tal rede de extermínio, com suas ferrovias, trens de carga e campos de concentração somente foi revelada ao mundo após a queda da Alemanha. Tarde demais.
  • Ganhador do Oscar 2016 de melhor filme estrangeiro, Filho de Saul mostra a logística em um campo de extermínio através das ações de Saul, um membro do Sonderkommando (grupos de judeus prisioneiros que eram forçados a trabalhar na manutenção da estrutura dos campos). 
  • O horror em levar seus pares para a morte nas câmeras de gás e depois jogar os corpos em incineradores faz de Saul um ser sem emoções, robótico; mas ainda com humanidade suficiente para arriscar sua vida por um enterro digno a um menino, que ele reconhece como seu filho.


  • Hitler acreditava que seria questão de tempo para derrotar a Inglaterra. Seu egocentrismo aumentou ainda mais após a incrível capitulação da Holanda, Bélgica e França. Para uma Europa atônita e amedrontada, a Inglaterra de Churchill se tornou a última esperança.
  • O plano nazista era minar a Inglaterra através do controle do mar. E, de fato, dependente de importações para abastecer-se, a Inglaterra via com pesar cada navio mercante afundado pelos temidos submarinos nazistas.
  • Foi então que Alan Turing desenvolveu uma máquina capaz de decifrar os códigos Enigma, sistema criptográfico usado pelas forças alemãs para troca de mensagens. Graças a isso, comboios de navios mercantes podiam prever as rotas inimigas.
  • O filme O Jogo da Imitação mostra que uma guerra não é ganha apenas no campo de batalha e que a dedicação de cientistas e espiões foi decisiva para a vitória dos Aliados.
 
  • Diante da dificuldade em dominar uma ilha bem defendida como a Inglaterra, Hitler rompeu o Pacto de Não Agressão e invadiu, em junho de 1941, uma surpresa União Soviética, que perdeu grande território e praticamente toda sua esquadra de aviões. O mundo em espanto prendeu a respiração. Será que a potência comunista de Stálin também capitularia? 4 milhões de soldados soviéticos foram feitos prisioneiros. Outros milhões morreram em combate.
  • Mas veio o inverno e, junto a ele, um poder de reação impressionante do exército soviético. Começava aí uma surpreendente virada nos rumos da guerra em que a superioridade numérica do exército vermelho e a ajuda externa de Inglaterra e Estados Unidos foram fundamentais.
  • Em 1943, com o fracasso em tomar Stalingrado, Leningrado e Moscou, as forças nazistas começaram a ser empurradas de volta à Alemanha, em total desmantelo. 

  • Os Estados Unidos mantiveram-se neutros o quanto puderam, apenas ajudando materialmente a Inglaterra durante o cerco à ilha. Mas isso mudou com o bombardeio japonês em dezembro de 1941 a Pearl Harbor, uma base americana no Havaí. 
  • Estava declarada a guerra ao Japão, mas não a Alemanha.
  • Foi então que algo surpreendente ocorreu: Hitler, de forma desmedida, declarou guerra aos EUA. Só que demoraria ainda mais de 2 anos para que as tropas americanas e inglesas desembarcassem na França (enquanto isso, reconquistaram o norte da África). Essa demora causou desgosto em Stálin, que combatia sozinho os alemães, recebendo contudo, armamentos e informações importantes de seus aliados.
  • O desembarque na Normandia em junho de 1944 foi um evento decisivo para o equilíbrio das forças (havia a possibilidade de Stálin tomar sozinho toda a Alemanha) e apertou o cerco ao nazifascismo, por todos os lados.


  • De quase vencedor e exímio estrategista militar, Hitler transformou-se, na visão de muitos historiadores, em uma das maiores fraudes da Segunda Grande Guerra. Motivos há para tanto: sua decisão amalucada de invadir a URSS sem o preparo para o inverno russo (confiava que tomaria Moscou antes da neve chegar) somada à soberba de declarar guerra aos EUA. Há ainda no seu currículo diversos erros estratégicos em batalhas, ocasionados por sua incapacidade em ouvir os seus comandados e de fazer recuos estratégicos.
  • Mas há também um fato primordial para a derrota: Alemanha, Itália e Japão jamais agiam em sintonia. 
  • Com os soviéticos tomando Berlim em 1945, o desespero, desgosto e loucura desse líder encontram-se límpidos em A Queda, um magnífico retrato da decadência e da derrota. Bruno Ganz tem aqui uma interpretação inesquecível, tornando-se o rosto do ditador Hitler no cinema.


  • Assim como a Alemanha, o Japão também promoveu a guerra afim de conquistar recursos minerais. Só que o seu palco foi o Pacífico e Ásia. E sua guerra de conquista inicio-se antes mesmo do conflito na Europa, com a anexação da Manchúria. 
  • Já com a Segunda Guerra em curso, aproveitaram-se da debilidade da França e apropriaram-se da Indochina, uma colônia francesa. Foi então que os EUA, preocupados com o expansionismo japonês, anularam acordos comerciais e iniciaram o embargo de petróleo e matérias-primas que o Japão necessitava para sua máquina de guerra. Foi a senha para o que o Japão invadisse Filipinas, Indonésia, Hong-Kong, Malásia, Birmânia e ainda bombardeasse Pearl Harbor.
  • Os EUA eram assim tragados para a guerra e, de 1942 a 1945, combateram o Japão no Oceano Pacífico, ilha após ilha, até os fatídicos dias em que lançaram duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, provocando a rendição nipônica.


  • Churchill declarou, durante um de seus memoráveis discursos, que na Segunda Guerra "as máquinas venceriam as máquinas". Sem entrar no mérito se estava certo ou errado em sua profecia, o que sobressai nessa magnífica série documental é o ser humano, em imagens repletas de dor e inesquecíveis.
  • "Em uma guerra não se matam milhares de pessoas. Mata-se alguém que adora espaguete, alguém que é gay, outro que tem uma namorada. Uma acumulação de pequenas memórias" (Cristian Boltanski)


  • Uma das principais consequências do genocídio em massa dos judeus europeus foi a criação de Israel em 1948, após uma intensa migração para o Oriente Médio dos sobreviventes e dos que tiveram condições de fugir ao cerco nazista.
  • Em 1960, Adolf Eichmann, um oficial nazista foragido, foi levado a julgamento em Israel, o que atraiu a atenção de Hannah Arendt, conceituada filósofa política alemã. Daí nasceu a sua obra mais controversa: Eichmann em Jerusalém, em que  afirma que ele nada mais era do que um burocrata que cumpria ordens superiores, movido pelo desejo de ascender em sua carreira profissional. Cumpria ordens sem questioná-las, sem refletir sobre o bem ou o mal que pudessem causar.
  • Segundo a filósofa, o mal é político, histórico e se manifesta apenas onde encontra espaço institucional para isso. A trivialização da violência corresponde, assim, ao vazio de pensamento, onde a Banalidade do Mal se instala.

sábado, 15 de outubro de 2016

GLÓRIA FEITA DE SANGUE (Paths of Glory, 1957)


UM CLÁSSICO ATEMPORAL DO CINEMA.

país produtor: Estados Unidos da América
direção: Stanley Kubrick
elenco: Kirk Douglas, Adolphe Menjou, George Macready, Ralph Meeker, Christiane Kubrick

sinopse: Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, o general francês Mireau, ordena um ataque impossível e, diante do fracasso, instaura corte marcial para punir com a morte três soldados, acusados de covardia.

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Paths of Glory é um libelo anti-guerra e anti-militar poderosíssimo. De forma elegante, o roteiro e a direção de Kubrick nos leva ao espanto com a hipocrisia de relações marcadas pela hierarquia e subordinação. Os palcos: os palácios e as trincheiras da Primeira Grande Guerra, um conflito que expôs a insanidade dos governantes europeus e redefiniu o mapa mundial. 


Primeiro, somos apresentados aos palácios. Onde os generais Paul Mireau e George Broulard, por suas estrelas e promoções, decidem levar suas tropas a um ataque impossível com o objetivo de tomar um maciço chamado Colina Formigueiro. São diálogos onde o cinismo e a hipocrisia imperam.


Em seguida vemos as trincheiras, onde a morte se instalava, seja pela gripe espanhola, por gases tóxicos ou artilharia inimiga. Trincheiras essas que tornaram a guerra estática, com avanços mínimos de ambos os lados, durante meses e até anos. As opções defensivas suplantavam as de ataque. A antiquada noção dos comandantes de que para vencer uma batalha era preciso antes de tudo a coragem da tropa se esvaia a cada avanço refutado, a cada massacre. Entre os dois lados das trincheiras, a "terra de ninguém", onde o emaranhado de arames farpados e acidentes no terreno tornavam cada ataque ainda mais difícil.


Tal como ordenado, o ataque ocorre. Em cenas de guerra estupendas, um resignado Coronel Dax (Kirk Douglas) lidera seus soldados pela terra de ninguém, que pouco avançam. A segunda leva nem mesmo sai das trincheiras, sendo rechaçadas pela artilharia.

Diante da frustração do fracasso, Gen. Paul Mireau sugere, e Gen. Broulard concede, que três soldados, um de cada companhia, sejam levados a corte marcial. A acusação: covardia. Coronel Dax, agora indignado, pede para ser o advogado de defesa, na tentativa de impedir o fuzilamento. Temos aí o cerne da obra: um coronel em busca de justiça, contra a hipocrisia de dois generais.  


Considero esse o melhor filme de Stanley Kubrick. O apuro técnico é impressionante. A fotografia, uma das melhores que já vi. A parte sonora também é excepcional. Elenco formidável. Que defeito há nesse filme? Não encontrei.

O roteiro não fica atrás, é brilhante. Em menos de uma hora e meia, ótimos diálogos dão profundidade a diversos personagens, em um trabalho de concisão incrível. E o final... que cena surpreendente e bela. Lágrimas são inevitáveis. É o sopro de esperança que nos faz acreditar, ao fim, na humanidade.

Um filme como esse, que expõe o cinismo do discurso dos senhores da guerra, não pode nem nunca será esquecido. Eis aí, então, meus últimos adjetivos: Glória Feita de Sangue é um clássico atemporal do cinema.

Visto em VHS nos anos 90 e revisto por duas vezes em arquivo digital, em 2015 e 2016.

TOP 10 - FILMES SOBRE HOLYWOOD

  • Conta a história surrealista de uma jovem recém chegada a Hollywood e seu "sonho" em se tornar uma atriz de sucesso. Sua trama é repleta de situações e personagens misteriosos. A edição e direção optam por confundir o espectador, sem entregar respostas prontas. Por esses motivos, Mulholland Drive tornou-se uma das obras mais instigantes na história do cinema.
  • Cidade dos Sonhos mostra o lado menos glamouroso de Hollywood. Nada de grandes estúdios, premieres e tapetes vermelhos, mas sim produções de qualidade duvidosa em meio à promiscuidade entre elenco, produtores e diretores. Sexo como arma de poder no mundo do cinema é um dos inúmeros subtextos que esse clássico nos trás.
  • Com essa obra David Lynch foi indicado ao Oscar de melhor diretor, perdendo para Ron Howard, por Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind).

  • O Artista é um filme que nos diz muito sobre os sonhos e egos dos atores, atrizes, artistas. Sobre as dificuldades em se lidar com sucesso e fracasso. Sobre a insegurança, tão típica e tão importante, em se doar de corpo e alma para o público.
  • Assim como Cantando na Chuva, os conflitos estão relacionados com a difícil transição que toda a indústria teve que passar com o advento do som no filme. Trata-se de uma obra-prima, um filme excepcional. Quase que inteiramente mudo, faz uma linda homenagem a um período que muitos consideram os verdadeiros anos de ouro do cinema.
  • A coragem em fazer um filme mudo, em preto e branco e formato de tela 4x3 em pleno século XXI foi recompensada com diversos prêmios mundo afora, inclusive o Oscar de melhor filme e direção da Academia de Hollywood, além de outras três estatuetas. 

  • Uma ácida e divertida crítica ao poder dos produtores de Hollywood, O Jogador é a obra-prima de Robert Altman. Um exercício arrojado e divertido de metalinguagem, com diversas participações especiais de artistas interpretando a si próprios e referências mil à indústria. Entre os dez dessa lista é o que melhor define Hollywood.
  • Aclamado pela crítica, foi indicado a três Oscar apenas: melhor diretor, roteiro e edição, perdendo nas três categorias.

  • Não é um filme centrado em Hollywood, mas conta a história de um ator de cinema decadente que resolve produzir uma peça de teatro na Broadway na tentativa de reerguer sua carreira.
  • Lembrado sempre por ter dado vida no cinema ao Batman, Michael Keaton (então um ator envelhecido e esquecido por Hollywood) interpreta aqui um alter-ego que quer se livrar, igualmente, de seu personagem mais conhecido no cinema, também um super-herói. Pura metalinguagem.
  • Birdman é um belo estudo sobre atores, atrizes, seus medos e anseios. Além disso alfineta críticos de arte e zomba da moda atual em Hollywood por filmes de super-heróis. De grande ousadia estética (parece um imenso e único plano-sequência), levou os Oscar de filme, direção, roteiro e fotografia. 
 

  • Um ambicioso e icônico musical que retrata a transição de Hollywood para o cinema falado. 
  • Com um tom farsesco e cômico, o filme mostra a dificuldade dos técnicos em captar a voz dos atores e a adequação destes, com aulas de dicção e impostação. 
  • Há inúmeros e variados números de música e dança, mas é o mais simples deles, com um Gene Kelly soberano sob a chuva, que marcou e imortalizou esse clássico. 
  • Por incrível que pareça, a canção título não recebeu indicação ao Oscar. 


  • Na Grande Depressão nos anos 30, em meio ao desemprego e agruras da quebra da economia americana, o cinema de Hollywood se tornou uma válvula de escape para o grande público. É nesse contexto que Woody Allen conta essa singela história de uma mulher infeliz que é convidada a literalmente entrar na tela de cinema e viver um romance com seu grande ídolo.
  • Foi indicado ao Oscar de melhor roteiro original, mas perdeu para A Testemunha (Witness).

  • Durante a Guerra Fria nos anos 50, milhares de pessoas nos Estados Unidos foram investigadas e perseguidas por serem comunistas ou simplesmente simpatizantes. Essa perseguição, conhecida como Macartismo, levou Dalton Trumbo, um dos maiores roteiristas da história, a assinar seus melhores e premiados roteiros com pseudônimos, trabalhando na clandestinidade.
  • Esse drama biográfico, riquíssimo em dados históricos e personagens icônicos da história de Hollywood, foi indicado ao Oscar de melhor ator pela performance extraordinária de Bryan Cranston.

    • Um dos mais célebres filmes sobre Hollywood, conta a trágica história de um jovem roteirista endividado que se casa, por interesse, com uma outrora famosa estrela da Paramont Pictures.
    • Tal como Cantando na Chuva e O Artista, o motivo da decadência da estrela é o advento do cinema falado. Mas, diferente destes, o tom aqui é sombrio, depressivo e até desrespeitoso com o passado mudo de Hollywood.
    • Foi indicado a onze Oscar, mas só levou três, perdendo os principais prêmios para A Malvada (All About Eve). 


    • Buscando uma oportunidade de emprego, um novaiorquino de origem judia se muda para a Los Angeles dos anos 30 para trabalhar com seu tio, presidente de um grande estúdio. Frequenta então as altas rodas, mas sempre se sentindo um peixe fora d'água.
    • Repleto de referências, é um retrato cínico, mas afetuoso, do glamour, da pompa, das festas e dos egos da classe artística de Hollywood.

    • Barton Fink é um dramaturgo de Nova York que aceita o convite de um grande estúdio para escrever roteiros. Só que seu primeiro trabalho é um filme B ambientado no universo da luta livre, que ele desconhece completamente.
    • Assim como Cidade dos Sonhos e Trumbo, vemos aqui um lado mais obscuro da indústria do cinema, de onde proliferam filmes de baixo orçamento e péssima qualidade. 
    • Recebeu três indicações ao Oscar, uma delas de ator coadjuvante, para Michael Lerner, como um produtor que tem um surto de autoridade ao ser nomeado coronel, por ocasião da Segunda Grande Guerra.

    segunda-feira, 3 de outubro de 2016

    INVOCAÇÃO DO MAL 2 (The Conjuring 2, 2016)


    EXAGERADO, RIDÍCULO, PREVISÍVEL E, POR FIM, CANSATIVO.

    país produtor: Estados Unidos da América
    direção: James Wan
    elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Madison Wolfe

    sinopse: Mais uma vez o casal Lorraine e Ed Warren lutam contra forças demoníacas que atormentam uma família.

    Metascore: 65 (metacritic.com)

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    Lembro-me muito bem quando fui a um cinema de Brasília assistir ao primeiro Invocação do Mal. Lembro-me dos sustos, do frenesi nas cadeiras, das coisas boas que um bom filme de terror proporciona: diversão à base de nossos medos e limitações para lidarmos com o sobrenatural, mesmo que no faz de conta de uma tela de cinema.

    Filme bom de terror é assim: tem que ter jump scare, tem que ter sustos e, é claro, isso envolve uma boa dose de clichês que são reprocessados. A casa mal assombrada, crianças, portas entreabertas, escuridão. O mais importante em um bom filme de terror é o que não está na tela, o que a câmera não mostra e a gente antecipa e imagina. Tudo isso havia no primeiro Invocação do Mal, um inesperado sucesso de bilheteria em 2013.

    O início dessa continuação, filmada pelo mesmo diretor, é bastante promissor. A primeira cena me deu um arrepio que percorreu todo o meu corpo até os pelos do dedão do pé. E nisso vale uma informação importante: vi essa continuação com fones de ouvido, com os olhos em uma tela de 27 polegadas. Estar imerso e atento é muito importante em um filme de terror ou suspense. Se houver dispersão, não há como avaliar com justiça os méritos da obra.

    Mas, continuando, Invocação do Mal 2 não tem pudores de se mostrar como uma sequência. Aparentemente, tudo estava bem parecido com o que vi no primeiro. Ok, mas então, por que dessa vez a cada novo susto, a cada porta que se abria, a cada móvel que se arrastava, a cada aparição demoníaca, eu aos poucos fui me sentindo enfadado? O que deu errado a ponto de o medo se transformar em riso em determinados momentos?

    Resposta, o exagero.

    Os melhores filmes do gênero terror são os que aliam os sustos e clichês com a suspeição, sugerindo o sobrenatural. Por isso, foi especialmente difícil pra mim não esboçar incredulidade e riso diante de algumas cenas, como quando um cachorro se transforma em uma entidade demoníaca (totalmente desnecessária para a trama, diga-se de passagem); ou quando uma outra entidade até então aparecendo somente através de uma pintura na parede, se funde a esse quadro e avança sobre a personagem de Vera Farmiga.

    Me deu saudade de A Bruxa (2016), um filme que, a despeito de seus problemas (que já analisei aqui), é muito mais perturbador do que esse passatempo infanto-juvenil. Pois é isso: infelizmente, Invocação do Mal 2 foca em um público afoito e menos propenso a uma trama que invista no terror psicológico. Estratégia bem sucedida, diga-se de passagem, pois sua bilheteria só na semana de abertura já pagou os custos de produção.

    Dado o cenário atual, nada de surpresas quanto ao sucesso comercial. O que me espanta é a crítica ter sido tão complacente com esse embuste.

    Por enquanto, o pior filme que vi esse ano.

    Visto em outubro de 2016, em arquivo digital.

    terça-feira, 27 de setembro de 2016

    CIDADE DE DEUS, 10 ANOS DEPOIS (Brasil, 2015)


    UMA EXCELENTE PREMISSA DESPERDIÇADA.

    país produtor: Brasil
    direção: Cavi Borges, Luciano Vidigal

    sinopse: Após 10 anos que o emblemático Cidade de Deus foi lançado, como estão as vidas dos seus jovens atores e atrizes?

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    Cidade de Deus é o mais bem sucedido filme brasileiro da história com feitos que vão muito além dos quatro Oscars aos quais concorreu. É um clássico do cinema mundial que até hoje é lembrado, citado e discutido. Está na 27ª posição no Top Rated do iMDB, com 8,7 de média nas cotações dos usuários. Ganhou prêmios mundo afora, virou um ícone pop no Brasil.

    Grande parte do sucesso do filme deveu-se ao cuidado de seus diretores, Fernando Meirelles e Kátia Lund, na escolha e ensaio do elenco. Com poucos rostos conhecidos, muitos sem nunca ter atuado na vida, os diretores optaram por oficinas e ensaios afim de preparar e definir os papéis, em um processo que levou meses.

    Pobres e sem maiores perspectivas na vida, alguns desses futuros atores eram da própria Cidade de Deus, caso de Leandro Firmino (Zé Pequeno). Outros eram do Vidigal, onde há até hoje uma sólida companhia de atores, a Nós do Morro. Do núcleo dessa companhia em Nova Iguaçu vieram outros nomes para o filme. Agora, você imagina, o que não deve ter passado pela cabeça dessa turma, quando se viu trabalhando em um filme, "virando ator" e, mais ainda, diante do sucesso mundial, sendo assediado e reconhecido? Como cada um lidou com isso, como cada um aproveitou a oportunidade, temos aí o enredo desse documentário.

    Apenas dois nomes do elenco sensacional de Cidade de Deus não eram, em 2002, desconhecidos. Matheus Nachtergaele (Sandro Cenoura) já era um ator com projeção nacional. Seu Jorge (Zé Galinha) tinha uma carreira musical bem delineada e debutava na tela grande. São os estranhos no ninho. Muito pouco para um público conservador e ávido por estrelas de novela. É incrível como Cidade de Deus quebrou paradigmas e se impôs com um elenco praticamente desconhecido e negro. Um feito para a história do cinema.

    Há revelações incríveis nesse documentário. Ficamos sabendo por exemplo que o ator principal, Alexandre Rodrigues (Buscapé), tinha a proposta de levar o cachê de dez mil reais ou então receber uma porcentagem sobre a bilheteria. É bonita a forma como ele conta isso, entre risos arrependidos, pois ele escolheu os dez mil de que tanto necessitava, decerto.

    Há outros momentos muito bons, como quando acompanhamos os percalços de Rubens Sabino (Neguinho), com um olhar vidrado, relembrando o dia que foi preso por furto. Inteligente, ele ainda filosofa sobre o sentido do próprio documentário, segundo ele, a serviço dos egos, inclusive o próprio. Rubens é dependente químico e em 2015 resolveu sair da Cracolândia e recomeçar a vida em Portugal, com a ajuda de um amigo. Mais uma ajuda, dentre tantas que recebeu de pessoas como o ex-baterista do Rappa, Marcelo Yuka, e do próprio diretor Fernando Meireles. Não sabemos se essa nova oportunidade de recomeçar foi bem aproveitada. Não há mais notícias sobre essa pobre alma atormentada.

    Outro momento marcante é quando a produção armou o encontro entre Seu Jorge, hospedado no Marina Palace no Leblon, e Felipe Paulino, a criança que chora ao levar um tiro na mão. Felipe trabalhava então nesse hotel, como jovem aprendiz, um jeito mais bonito de falar estagiário. Com um certo constrangimento no ar, as câmeras testemunham o sucesso e o fracasso trocando algumas palavras e um abraço forçado. Felipe Paulino, por problemas familiares, desistiu da carreira artística.

    Todos esses momentos estão nos dois primeiros terços do filme. É quando se acompanha o que a vida fez com esses jovens e muitos outros. Assim vão se passando os minutos, com o filme basicamente saciando a curiosidade do espectador. Apesar do claro interesse que desperta, já nota-se aqui a falta de uma discussão mais direta sobre os motivos do sucesso ou os erros que levam ao fracasso. 

    O grande problema do filme está no seu terço final quando, abruptamente, passa a levantar os porquês dos fracassos, relacionando-os com as dificuldades de um negro ser chamado para papéis na TV ou no cinema. Uma discussão pertinente, mas que soa meramente panfletária e sem a devida base contextual. A edição infelizmente perdeu muito tempo de filme discutindo bobagens como valor de cachês. Maior ganho para a discussão seria dar para o espectador uma visão mais ampla sobre a questão racial no Brasil, que se reflete não só na TV e no cinema, mas em todo o mercado de trabalho. Um certo vitimismo também é perceptível, sem levar em conta que simplesmente nem todos aqueles jovens atores desenvolveram o talento suficientemente para se consolidar no audiovisual.

    E afinal, por que a ausência de Fernando Meireles e Katia Lund entre os entrevistados? Se recusaram? Não foram nem contactados? Seja como for, eis aí um dos maiores erros dessa produção, repleta de boas intenções, mas sem o devido preparo de seus realizadores para dar conta de todas elas.

    terça-feira, 20 de setembro de 2016

    FLORENCE - QUEM É ESSA MULHER? (Florence Foster Jenkins, 2016)


    NA COMÉDIA OU NO DRAMA MERYL STREEP É GENIAL.

    país de produção: Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte // direção: Stephen Frears // roteiro: Nicholas Martin // elenco:  Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg

    sinopse: Baseado em eventos reais, o filme conta parte da vida de Florence Foster Jenkins (1868 - 1944), uma mimada grã-fina que insiste em cantar em público, mesmo não tendo talento.

    Metascore: 71 (metacritic.com)

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    Se há algo de genial nesse filme, é a atuação de Meryl Streep. Repleta de nuances entre o drama e a comédia, com olhares, gestuais e um domínio de cena absurdo, ela tem aqui uma atuação até melhor do que a alcançada em A Dama de Ferro (2011), seu último Oscar.

    De presente para uma atriz tão extraordinária, um personagem fascinante: Florence Foster Jenkins, uma figuraça da alta roda novaiorquina, amante da música, adulada por todos e, por isso, sem "Simankol" quanto aos seus dotes vocais. Personagem real, Florence está lá no Wikipedia: ela foi uma talentosa pianista mirim e poderia ter uma bela carreira senão fosse a sífilis contraída de seu primeiro marido, na noite de núpcias. A partir daí deu aulas de piano para se sustentar até que recebeu a vultosa herança de seu pai e se tornou uma espécie de matrona musical na cidade.


    O roteiro bem amarrado foca o final da vida de Florence, quando ela lutava contra os efeitos da sífilis, apesar dos prognósticos negativos dos médicos. Pois bem, já tendo se apresentado no passado informalmente como cantora lírica, ela resolve dar um passo além e contrata um professor renomado e um pianista iniciante (Simon Helberg) para acompanhá-la. Ao seu lado nessa empreitada está o seu companheiro fiel St Clair Bayfield (Hugh Grant), um frustrado ator de teatro. É ele quem organiza tudo e suborna a todos, de forma que sua amada Florence não sofra uma desilusão. Pois sim, ela acredita em seu talento como cantora, algo que beira o surreal diante do que ouvimos! As cenas em que Florence canta são hilárias. Fazia tempo que não ria tanto em um filme. 

    E se eu tinha alguma dúvida quanto ao exagero de ruindade de suas performances, a própria Florence original fez questão de deixar para a posterioridade o seu "talento". Há vários vídeos no Youtube com números líricos seus, retirados de 78 rotações. Eis um deles: https://youtu.be/-quQHNriV-Q. Veredicto: a reconstituição musical do filme é perfeita.


    Perfeita também é a fotografia. Lentes, tons, iluminação... tudo uma maravilha. O diretor Stephen Frears contou com a elegância de Danny Cohen, que desde O Discurso do Rei (2010) vem emplacando belos e elogiados trabalhos. Ele também assinou Os Miseráveis (2012), Garota Dinamarquesa (2015) e O Quarto de Jack (2015). Brilhante.

    Florence, contudo, não é um filme perfeito. Há alguns problemas no ato final, com uma indesculpável pressa em terminá-lo, somada a uma tentativa canhestra em emocionar o público. Apesar dos momentos dramáticos serem importantes durante toda a obra, sinto que cairia melhor um final para cima, até mesmo em aberto. A comédia e a farsa são os melhores trunfos aqui.

    Li algumas pessoas falando que Florence é uma "sessão da tarde de luxo". É uma boa definição. Trata-se de um título que dificilmente alguém detestará. Meryl Streep dirigida pelo competente Frears não poderia resultar em um projeto mal sucedido, ainda mais ladeada por uma dupla tão bem escolhida. Hugh Grant é um mar de simpatia e elegância. Já Simon Helberg tropeça em alguns momentos, mas é inevitável o riso quando a lente captura o seu rosto e seus olhares incrédulos diante do canto atrapalhado de sua chefe.


    Meryl Streep... Não tenho medo de coloca-la no panteão como a maior das atrizes. São incontáveis seus prêmios e performances arrebatadoras. Cito aqui as para mim inesquecíveis: Kramer vs. Kramer (1979), A Escolha de Sofia (1982), Silkwood (1983), Amor a Primeira Vista (1984), Entre Dois Amores (1985), As Horas (2002), O Diabo Veste Prada (2006), A Dama de Ferro (2011) e Florence (2016).

    Será que virá a 17ª indicação ao Oscar para essa atriz sensacional? Diante do que vi nesse filme, já estou na torcida.

    Visto em arquivo digital em setembro de 2016.

    quarta-feira, 14 de setembro de 2016

    A COMUNIDADE (Kollektivet, 2016)


    A TAL COMUNIDADE DO TÍTULO É APENAS PANO DE FUNDO PARA UM DRAMA FAMILIAR

    país de produção: Dinamarca, Suécia, Holanda // direção: Thomas Vinterberg // elenco: Ulrich Thomsen, Trine Dyrholm, Helene Reingaard Neumann

    sinopse: O casal Erik e Anna herda uma casa imensa e resolve abri-la aos amigos e conhecidos. Só que as coisas começam a azedar quando Erick se apaixona por uma aluna e a leva para viver na comunidade, com o consentimento inesperado de Anna.

    Metascore: 60 (metacritic.com)

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    Talvez A Comunidade seja o pior filme do ótimo diretor dinamarquês Thomas Vinterberg. Digo talvez pois não conheço toda a sua filmografia. É um filme frouxo, até idiota. Não combina com suas obras maiores, Festa de Família (1998), Submarino (2010) e A Caça (2012).

    De início temos a improvável decisão do acadêmico sisudo Erick, diante do tédio de sua esposa, de abrir para amigos, conhecidos, agregados e amigos de amigos, um casarão herdado. Tudo bem, o filme se passa no início dos anos 70 onde havia os sonhos da coletividade, de paz, amor, liberdade. Mas algo fica mal amarrado nisso aí. As justificativas são frágeis e o desenrolar para a formação da comunidade carece de substância. Diálogos terríveis, cenas tolas e personagens sem graça formam um breve resumo do primeiro ato do filme.

    Até que entra em cena Emma, a bonita e insinuante aluna de Erick. Forma-se um triângulo amoroso. O filme ganha em interesse. A comunidade e seus tipos mal desenvolvidos, com os problemas que a vivência sobre o mesmo teto geram, ficam eclipsados pelo real conflito do filme: o caso extraconjugal de Erick e suas consequências para sua esposa e filha adolescente. Esse drama familiar é até bem vindo, já que a tal comunidade, desperdiçada em suas tolices, vira definitivamente um pano de fundo. Mas é muito pouco e, para piorar, o desfecho é mal elaborado, um anticlímax.

    Me causa espanto o desperdício de um enredo tão potente. Vinterberg baseou o roteiro em experiências próprias, vividas em sua adolescência. Além disso, ele está em seu habitat. Filmado na Dinamarca, A Comunidade tem em alguns momentos a mesma pegada de Festa de Família, mas sem a mesma intensidade nos conflitos. Sobra de bom as atuações e algumas cenas interessantes e fortes, não mais.

    Visto no Estação Net Rio, em setembro de 2016.

    terça-feira, 6 de setembro de 2016

    CAFÉ SOCIETY (Café Society, 2016)


    DIVERTIDO, MAS COM IDEIAS DIFUSAS DEMAIS.

    país produtor: Estados Unidos da América // direção e roteiro: Woody Allen // elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Blake Lively, Steve Carell, Corey Stoll

    sinopse: Um jovem novaiorquino se muda para a Los Angeles dos anos 30 em busca de uma carreira. Em meio ao glamour de Hollywood, se apaixona pela secretária de seu poderoso tio. Enquanto isso, em Nova York, seu irmão se destaca como um gangster dono de uma casa noturna.

    Metascore: 64 (metacritic.com)

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    Desde o título genérico, passando pelo uso preguiçoso de um narrador (a voz é do próprio Woody Allen), até a resolução dos conflitos que o filme apresenta, temos aqui um trabalho menor do diretor e roteirista, cuja importância de sua vasta filmografia sempre nos induz a esperar algo mais de seus filmes anuais.

    O roteiro é o principal problema de Café Society. Há uma profusão de situações mal estabelecidas e uma dispersão entre os enredos apresentados que atrapalha em muito para que haja um foco e, com isso, maior aproximação do público com o casal romântico. Por isso, assistimos passivos aos encontros e desencontros dos personagens de Jesse Eisenberg e Kristen Stewart, ambos apenas corretos em seus papeis. Não há envolvimento, não torcemos. Não é, nem de longe, um casal que combina.

    Parece que assistimos dois filmes: um romântico, ambientado em Los Angeles, com direito a críticas à Hollywood em meio a um tom nostálgico aconchegante; e outro, uma comédia ácida de cores mais frias, ambientado em NY, com gangsters e uma impagável família judaica. Pra piorar, a edição do filme não ajuda para que esses dois filmes se encaixem.

    Porém nem tudo está perdido em Café Society. Há cenas belíssimas que são um encanto às retinas. Há ainda boas cenas, com diálogos memoráveis, o que torna o filme um passatempo divertido. Mesmo em um filme menor, temos que aplaudir Woody Allen em uma cena aqui, outra ali. Ainda bem.

    Visto no Net Gavea, Shopping da Gávea, Rio de Janeiro, em agosto de 2016.

    sábado, 3 de setembro de 2016

    AQUARIUS (2016)



    SOMENTE UM ADJETIVO JÁ BASTA: MEMORÁVEL.

    país produtor: Brasil // direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho // elenco: Sônia Braga, Humberto Carrão, Maeve Jinkings, Julia Bernat, Irandhir Santos

    sinopse: Para construir um novo empreendimento imobiliário em Recife, uma construtora compra todos os apartamentos de um pequeno edifício na praia de Boa Viagem, menos o da irredutível Clara, uma jornalista que viveu boa parte de sua vida nesse endereço. A partir daí, ela passa a sofrer com ameaças e o assédio antiético e pouco ortodoxo da construtora para que mude de ideia.

    Metascore: 85 (metacritic.com)

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    Que coisa maravilhosa ver um filme que se passa em um centro urbano brasileiro que não seja Rio de Janeiro ou São Paulo. O diretor, um talento inquestionável, promove aqui um apaixonante libelo pela preservação das coisas e as lembranças que elas carregam. Mas Aquarius é também uma obra envolta em um embate político e ideológico muito caro aos brasileiros, de que falarei mais adiante.

    A personagem principal é Clara, uma jornalista sessentona que cresceu e viveu no Edifício Aquarius, de frente para a Praia de Boa Viagem, em Recife. Foi lá que ela criou os seus filhos, é lá que ela tem as memórias vivas de sua mãe e seu falecido marido. Acontece que uma construtora, visando erguer um novo edifício no lugar do Aquarius, resolve comprar todos os apartamentos. Menos o apartamento de Clara, que nem mesmo aceita negociação.


    Eis aí o conflito do filme. De um lado, uma senhora querida e respeitada por todos da redondeza, querendo preservar suas coisas, suas memórias. Do outro, "a força da grana que ergue e destrói coisas belas". Eu, como espectador, logo de cara já fico sabendo: não há oferta que pague pelas memórias de Clara. Mas não deixo de me surpreender. O edifício é simpático, mas pouco oferece além da localização. A oferta da construtora daria para Clara comprar um ótimo apartamento, em um edifício melhor, na mesma avenida. Ok, mas e as lembranças, que não podem ser vendidas, como ficam?


    Diante dessa trama quixotesca, o principal desafio do roteiro é fazer com que o espectador entenda o lado de Clara que, sozinha, resiste naquele edifício. Que enfrenta o jogo sujo da construtora, forçando-a a ceder. Para isso, o diretor e roteirista entrelaça o embate de Clara contra a construtora com cenas que evocam o poder das coisas, das memórias, da simplicidade.

    Entre essas cenas, há duas especiais pela excelência com que foram conduzidas. Uma vem logo no início. É uma festa de família no final dos anos 70. Há um clima de liberalismo no ar. Na vitrola, Gilberto Gil e seu disco Realce põe todos para dançar com "Toda Menina Baiana". É impressionante o naturalismo alcançado por essa sequência (e que permeia todo o filme). É um trabalho admirável e muito, muito difícil de ser alcançado. Só grandes diretores conseguem tal resultado.

    Outra cena mostra Clara sendo entrevistada por uma jornalista jovem e despreparada. Clara fala que não tem problema com mídias digitais, que houve Spotify e mp3, mas que precisa de seus discos. Ela então pega um exemplar de Double Fantasy, último disco de John Lennon. Dentro há um recorte de jornal com uma entrevista que Lennon concedeu semanas antes de ser assassinado. Clara comprou esse disco em um sebo e descobriu surpresa aquele recorte dentro do encarte. O disco, somado ao recorte, adquire para ela um significado especial. É como uma mensagem dentro de uma garrafa, lançada ao mar. São as coisas tentando resistir à imaterialidade digital. A jovem jornalista não entende muita coisa, ou não se interessa.


    No decorrer do filme, algumas perguntas foram sendo formuladas por mim. E concluo que a intransigência de Clara, a sua força, pode às vezes boicotar a sua própria felicidade. Ela a quase 40 anos extirpou um câncer do seio direito, mas na sua forma de encarar a vida, não se vale de uma cirurgia plástica para reformá-lo. Por causa disso, vemos em uma cena um homem, com quem ela tem um curto relacionamento, se afastar. Não deve ter sido a primeira vez que isso ocorre. Já eu, na minha cadeira de espectador, fico até imaginando a sua filha, com quem Clara tem um duro e afetuoso embate, lhe recomendando por diversas vezes uma consulta com um cirurgião plástico, da mesma forma como recomenda que ela aceite a proposta da construtora. Será que sua filha no fundo não tem razão em seu pragmatismo? Por que manter aquela marca do passado? Por que manter o imóvel sem vizinhos ao redor, em tão contrárias circunstâncias? Responder essas perguntas me leva à razão de ser do filme e à originalidade e humanidade da personagem Clara. Adoro heroínas femininas.


    Aquarius ganhou publicidade no Brasil quando seu diretor e parte do elenco aproveitaram o Festival de Cannes para defender Dilma Rousseff contra o processo de impeachment. Em seguida iniciou-se uma celeuma desnecessária e uma absurda campanha de boicote, em que se acusa o filme de usar dinheiro público via financiamento da Lei Rouanet, para defender um governo corrupto. Acho esse tipo de pensamento um tanto equivocado. A Lei Rouanet pode ajudar a obras primas sem grande apelo comercial, como esse filme, existirem.

    Além disso, os ecos políticos que ajudaram Aquarius a ser adotado pelos que apoiam a presidente destituída Dilma Rousseff são tão sutis que tornam esse filme atemporal. Mais palmas para o diretor, dessa vez por sua sutileza. Me poupou de um discurso ultrapassado e infantil.

    Direção segura e em muitos momentos genial, elenco soberbo, ideias pertinentes. Aquarius é, por enquanto, o melhor filme do ano.

    Visto no Net Gávea, no Shopping da Gávea, Rio de Janeiro, em setembro de 2016.

    domingo, 8 de maio de 2016

    RELATOS SELVAGENS (Relatos Salvajes, 2014)


    A FALTA DE AMBIÇÃO NARRATIVA ME FAZ QUESTIONAR O OBA-OBA CRIADO PELA CRÍTICA BRASILEIRA.

    país produtor: Argentina, Espanha // direção e roteiro: Damián Szifrón // elenco: Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín, Oscar Martínez, Erica Rivas.

    sinopse: Seis histórias sobre vingança e perda de controle emocional de seus personagens.

    Metascore: 77 (metacritic.com)

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    Elogiadíssimo e muito bem realizado, Relatos Selvagens me levou a questionamentos quanto a sua estrutura episódica. Pois na verdade trata-se de um longa-metragem de fachada, composto por seis curtas-metragens independentes, mas reunidos por uma atmosfera, fotografia, música e edição de primeira. 

    Bateria palmas para os realizadores se eles fossem mais ambiciosos e criassem laços narrativos entre as histórias. O personagem de um episódio aparecendo em outro, uma TV ligada noticiando algo que aconteceu ou acontecerá em outro episódio, coisas assim. Relatos Selvagens tem uma estrutura narrativa cômoda demais. Bem que Robert Altman, com o seu Short Cuts (1992), poderia servir de inspiração para Damían Szifrón...

    Sei que falando isso estou indo contra a imensa maioria dos críticos brasileiros, pois Relatos Selvagens encontrou em por aqui um território plácido em críticas. Já lá fora, a história foi outra. Uma rápida pesquisa no IMDb revela que o seu Metascore tem média 77.

    O grande barato de Relatos Selvagens é que é o tipo de filme que provoca uma grande identificação com o público. Algumas situações nos levam a pensar como agiríamos se estivéssemos na pele desse ou aquele personagem. Todos nós temos um instinto oculto, uma vontade de explodir com tudo, de rodar a baiana e essa identificação é a força do filme. Vivas para o trabalho do elenco, com destaque para Erica Rivas como a noiva alucinada do último episódio e Rita Cortese, como a cozinheira psico do segundo episódio. Sem boas interpretações e personagens com que nos identificássemos, esse filme fracassaria.


    Pra finalizar, Relatos é sem dúvida um filme divertido, mas sem ambição suficiente para tanto oba-oba. Além disso, me incomoda as comparações com o cinema argentino. Para mim, tanto argentinos quanto brasileiros nadam em uma mesma maré, dependendo aqui e ali de brilhos individuais de alguns bons realizadores.

    Ou você acha que nossos hermanos só produzem O Segredo dos Seus Olhos? Há também muita coisa mais ou menos sendo feita abaixo do Rio Grande do Sul e que nem chega aos nossos cinemas.

    Visto em 2015 no Shopping Batel, em Curitiba.

    domingo, 1 de maio de 2016

    A BRUXA (The Wicht - A New England Folktale, 2015)


    TEM QUALIDADES, MAS É UM FILME DE TERROR QUE NÃO PROVOCA MEDO.

    país produtor: Estados Unidos da América, Brasil, Reino Unido da Grã-Bretanha, Irlanda do Norte // direção: Robert Rodgers // elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw

    sinopse: Uma família de colonos ingleses recém chegados aos Estados Unidos é expulsa da comunidade em que vivia e se estabelece à margem de uma floresta que acreditam ser habitada por uma bruxa.

    Metascore: 83 (from metacritic.com)

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    Fazia tempo eu não via um filme que dividisse tanto o público. De um lado, os mais casuais e que se interessam por um cinema de puro entretenimento. Do outro, os mais intelectualizados e com um gosto por filmes mais artísticos. No meio, um simples conto de horror narrado sem os clichês típicos do gênero.

    Também, pudera. Não há em A Bruxa qualquer concessão. A fotografia é propositadamente escura. A história é contada de forma lenta. O horror não é explícito.

    Parênteses: Eis um típico filme que deve ter sido um tormento assistir em uma sala de cinema. Se já sofro com a má educação do público em filmes blockbusters, fico imaginando o que eu não passaria vendo no cinema uma obra como essa, repleta de silêncios e pouca ação. Ainda bem que assisti A Bruxa no conforto do meu quarto.

    A falta de concessões é tamanha que um dos aspectos mais interessantes de A Bruxa é apenas revelado em seus créditos finais. Seu roteiro é baseado em relatos e contos históricos, a partir de diários e documentos judiciais. Sendo irônico, posso afirmar que se o diretor e roteirista tivesse colocado a informação "baseado em fatos reais" bem no início, a audiência casual teria se interessado mais pelo filme.


    E quanto ao medo? Afinal, quem vai ver um filme de terror quer isso, sentir medo. A Bruxa é um filme bem sucedido nesse quesito? Tenho minhas dúvidas.

    Li e vi gente falando que ficou arrepiada, mas eu particularmente, passei incólume. Infelizmente o diretor, dotado de grande talento estético, não soube implantar o medo em mim. E bons momentos para isso não faltaram, todos mal aproveitados. Filme de terror que não mete medo é a mesma coisa que comédia que não faz rir. É frustrante.

    O terror em A Bruxa não é audiovisual mas psicológico. Igual a O Bebê de Rosemary (1968). Tem seu valor, mas eu adoro aquela sensação de medo e a velha e defensiva tática de racionalizar, dizendo para mim mesmo que "isso é só um filme". Assistir um bom filme de terror é sempre uma experiência incrível. Pena que esse gênero é tão carente de grandes talentos.

    Por tudo isso, entendo as críticas negativas do público casual, apesar de não concordar com notas baixíssimas e exageros como "o pior filme que assisti". A Bruxa é um filme com qualidades (direção de arte e música principalmente) mas que sofre com a mão pesada de um diretor que não soube valorizar o fator entretenimento.

    Visto em arquivo digital em 2016.